Um gol histórico para um herói silencioso

Após 52 edições, a Copa Libertadores da América se transformou em uma das competições de clubes mais prestigiosas do planeta, gerando uma infinidade de momentos históricos que marcaram a carreira de inúmeros jogadores. Alguns deles, no entanto, têm trajetórias de vida que superam seus feitos dentro de campo.
É o caso do atacante uruguaio Carlos Borges, que entrou para a história como o autor do primeiro gol da competição, nos idos de 1960, quando o Peñarol enfrentava o Jorge Wilstermann, da Bolívia. “Lucho”, como ainda hoje, aos 80 anos, é conhecido em sua terra natal, já era famoso não só por suas conquistas no clube aurinegro, mas também pelo que havia feito com a camisa a seleção de seu país.O que poucos sabem é que, alguns anos mais tarde, Borges virou herói ao salvar a vida de um menino durante um naufrágio. Esse acontecimento marcaria o início do fim de sua carreira. A seguir, o FIFA.com narra sua história.



Um ponta inteligente e oportunista
Nascido no dia 14 de janeiro de 1932, Borges foi revelado nas categorias de base do Peñarol, no qual estreou profissionalmente em 1946, com apenas 14 anos. No entanto, ele só foi se firmar na equipe principal do clube no início da década de 1950. De acordo com as reportagens da época, era um ponta-esquerda perigoso, habilidoso e com grande faro de gol. Chutava bem com ambas as pernas e podia jogar pela direita quase com a mesma naturalidade.Seu nome ultrapassou as fronteiras uruguaias na Copa do Mundo da FIFA Suíça 1954, quando ele fez três gols da goleada por 7 a 0 sobre a Escócia, ainda na primeira fase. Lucho marcaria mais um naquele Mundial, abrindo o placar da vitória sobre a Inglaterra por 4 a 2 nas quartas de final. Assim, se transformou no último jogador de seu país a fazer ao menos quatro gols na competição, até que Diego Forlán, com cinco, o superasse na África do Sul 2010. Aquela seleção, formada também por Roque Máspoli, Obdulio Varela e Juan Hohberg, companheiros de Borges no Peñarol, foi quarta colocada na Suíça. Porém, já tinha a base do conjunto que, em 1956, voltaria a dar o título da Copa América ao Uruguai, depois de um jejum de 14 anos. Nesse torneio, Borges balançou a rede mais uma vez.
Em 1958, com sete gols, ele foi artilheiro do Peñarol no Campeonato Uruguaio, ajudando o clube na conquista do primeiro de cinco títulos consecutivos – um pentacampeonato que ficou conhecido como o “Primeiro Quinquênio Dourado” do clube de Montevidéu. Mas foi o triunfo de 1959 que permitiu ao conjunto aurinegro disputar a inédita Copa Libertadores da América.

O gol histórico
O primeiro jogo, contra o Wilstermann, aconteceu no mítico Estádio Centenário da capital uruguaia, no dia 19 de abril de 1960. Cerca de 35 mil pessoas estavam presentes. Borges fez o gol histórico logo aos 13 minutos do primeiro tempo. “Hohberg avançou pela meia e deu um belo passe em profundidade para Cubilla”, descreveu o jornal El Diario. “Frente a frente com o goleiro Rico, o ponta-direita chutou e acertou o travessão. O rebote ficou com Borges, que bateu forte sobre o zagueiro Rocabado. A bola sobrou novamente para o atacante do Peñarol, que desta vez chutou no alto, superando o arqueiro.”Poucos se lembram de que, 14 minutos depois, Borges marcou mais um. Isso provavelmente se explica porque, naquele dia, Alberto Spencer fez nada menos do que quatro gols na vitória do Peñarol por 7 a 1. Lucho não voltaria a balançar a rede na competição, que o time uruguaio acabou conquistando ao derrotar o Olímpia, do Paraguai, na decisão.Borges foi para o Racing, da Argentina, já no final de 1960, logo depois de o Peñarol perder a Copa Intercontinental para o Real Madrid de Di Stéfano, Puskás e Gento. No clube argentino, foi uma peça importante da equipe campeã nacional em 1961. Dois anos depois, porém, sua vida mudaria para sempre.

Herói do silêncio
Borges jamais havia imaginado o que aconteceria no dia 10 de julho de 1963, quando subiu ao vapor Cidade de Assunção para cruzar o Rio da Prata em direção a Buenos Aires. Às três da manhã, houve um forte golpe, que rapidamente fez a embarcação começar a adernar.”Levanta, que estamos afundando!”, gritou seu companheiro de quarto. Ao chegar ao convés, havia verdadeira confusão, à exceção de um marinheiro que pedia a todos que se colocassem no lado oposto àquele por onde a água entrava, para “equilibrar o barco”. Uma hora depois, veio o pior: uma explosão na sala de máquinas. Apesar da espessa névoa, muitos começaram a se atirar na água, buscando agarrar qualquer coisa que flutuasse. Borges foi um deles, se segurando em um banco para tentar se salvar. Naquele momento, uma mulher gritou de onde vinham as chamas: “Por favor, não deixem meu filho morrer!”Sem saber nadar, Borges foi em direção à mãe, que, após deixar o menino cair à água, se perdeu entre o fogo. O jogador o ajudou a chegar ao banco em que se apoiava e, juntos, estiveram à deriva durante horas. Quase congelados, só foram receber ajuda de um barco argentino ao amanhecer. Depois de receber os primeiros socorros, Borges procurou o menino, que havia sido levado a outro lugar, e soube que estava bem. Ainda pôde acompanhar o reencontro do garoto com o pai. A mãe foi uma das quase 70 pessoas, segundo cifras extraoficiais, que faleceram na tragédia, provocada pelo choque com outra embarcação, que também afundou.
Quando chegou à Argentina, como bom profissional, Borges foi diretamente treinar no Racing, contrariando as recomendações médicas. Pouco depois, caiu desmaiado e só foi voltar a si dois dias depois. Então, regressou ao Uruguai para tentar se recuperar. Porém, o trauma o perseguiu durante meses e raramente ele falou do naufrágio. Apesar de ter voltado a jogar pelo Platense, da segunda divisão argentina, nunca mais foi o mesmo.Borges se aposentou em 1964, mas a história tinha um lugar reservado para ele, tanto no futebol quanto na vida.
Fonte:FIFA;com

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