Gigante Futebol Brasileiro acordou !: Seleção Canarinho conquista tetra das Confederações (Confira pôster):

Um decreto do prefeito Francisco Marcelino de Sousa pôs fim às touradas no Rio de Janeiro em 1907. Neste domingo, mais de um século depois, a cidade voltou a promover o típico evento espanhol. O espetáculo ocorreu no Maracanã, onde a Seleção Brasileira se apropriou do estilo de jogar futebol dos atletas da Espanha e fez a plateia gritar “olé”. Os gols de Fred (2) e Neymar cravaram as lanças fatais no peito dos atuais campeões mundiais, garantiram a vitória por 3 a 0 e o quarto título de Copa das Confederações ao Brasil, também vencedor em 1997, 2005 e 2009.
Com a conquista, exatamente 11 anos após o pentacampeonato mundial de 2002, o técnico Luiz Felipe Scolari resgatou de vez a confiança da torcida local a uma temporada do Mundial de 2014. Também deu aos seus adversários a mensagem que queria: os verdadeiros toureiros do futebol são brasileiros (apesar da 22ª colocação no ranking da Fifa), e não espanhóis. Do outro lado, o colega Vicente del Bosque tentará recuperar a sua equipe de um raro tropeço contundente desde os triunfos na Copa do Mundo de 2010 e nas Eurocopas de 2008 e 2012.

A final da Copa das Confederações da FIFA ocupou manchetes por colocar os donos do futebol mundial atual, aEspanha, diante dos maiores vencedores da história e da única grande equipe que ainda não haviam conquistado em sua brilhante era vencedora: a Seleção Brasileira. Pois ainda não foi desta vez. Pelo menos não num Maracanã exultante e com Neymar e Fred inspirados.

Numa atuação irretocável, o Brasil de Luiz Felipe Scolari desmoronou dúvidas e recordes com uma vitória por 3 a 0 – graças a dois gols de Fred e um de Neymar, novamente eleito o Craque do Jogo Budweiser da partida. A série de 26 jogos oficiais sem perder da Furia se encerrou com a primeira derrota em um jogo de competição oficial por três gols de diferença desde 1985, no País de Gales. E a Seleção Brasileira, em casa, conquistou seu quarto título do Festival dos Campeões; terceiro de forma consecutiva.

O primeiro grande momento para a torcida brasileira foi de um tipo de emoção, aquela que gera arrepios, quando os mais de 73 mil torcedores cantaram em uníssono o Hino Nacional Brasileiro. Pois demorou pouco, menos do que se suporia, para a outra emoção, a do grito, chegar. Após cruzamento de Hulk da direita, Fred e Neymar tentaram chegar na bola, disputando com Gerard Piqué. E aí veio o inusitado e instintivo do artilheiro do Fluminense: apesar de estatelado no chão, na pequena área, o centroavante ainda deu um jeito de bater – e forte – na bola, a centímetros de Casillas. Isso tudo com um 1min39s de jogo. Pela terceira vez no torneio, o Brasil abria vantagem com menos de dez minutos de jogo.

Era provavelmente o jogo mais importante da vida de Fred, mas nem parecia. Quer dizer, não se isso devesse significar estar nervoso. Inspirado, o camisa 9 brasileiro participou das outras duas chances de ouro que a Seleção teve nos primeiros 45 minutos. Logo aos 8, Fred desviou de letra cruzamento rasteiro de Neymar e deixou Oscar na cara do gol. O meia do Chelsea bateu buscando o canto direito de Casillas, a centímetros da trave. A segunda grande oportunidade foi do próprio Fred: agora de pé, ele ficou diante de Casillas num contra-ataque rápido, recebendo passe maravilhoso de Neymar no meio da defesa. O goleiro saiu bem para fechar o ângulo e defender o chute.

Espanha, enquanto isso, não tinha pressa para tocar a bola e, aos poucos, esperar a ocasião certa para criar. Foi assim, primeiro, num chute de longe de Iniesta que Júlio César defendeu bem aos 31. Depois, aos 41, quando saiu o que parecia o segundo gol brasileiro: um gol que não foi gol, mas David Luiz evitando o empate de maneira inacreditável.

Numa estocada rápida, a Furia, de repente, tomou a até então cuidados defesa brasileira de assalto com dois jogadores contra o goleiro Júlio César. Pedro apareceu cara a cara e tocou consciente, no canto direito. Mas David Luiz voou num carrinho para tocar a bola por cima. O grito das arquibancadas foi mesmo como o de um falso segundo gol – e se mostraria só aquecimento para o verdadeiro.

Os times estavam prontos para ir ao vestiário com um nervoso 1 a 0, mas o talento de Neymar tinha outros planos. A um minuto do final, um contra-ataque pela esquerda parecia ter ligeiramente se estancado, quando Oscar devolveu passe para o camisa 10 pela esquerda da área. E, então, com o centro da área bloqueado, o que o ex-santista fez? Chutou de esquerda, oras. Uma bomba alta, que passou por cima de Casillas e fez com que os dois – ele e Oscar – saltassem literalmente para junto do público para celebrar a vantagem.

Vantagem de dois gols, contra uma equipe vitoriosa como a da Espanha, não é garantia nenhuma com 45 minutos pela frente, mas, se o final de etapa inicial parecia ser quase perfeito, o início do segundo tempo não ficou atrás. E de um jeito bonito. De novo com menos de dois minutos, a vantagem brasileira cresceu: Marcelo ganhou a bola no meio-campo, serviu Hulk, que enfiou a bola para a entrada da área, aparentemente para Neymar. O camisa 10 fez o corta-luz que deixou a bola à mercê de Fred. Dentro da área, de primeira, são poucos os que são capazes de tocar no canto como ele. Três a zero.

A senha para a Espanha reagir veio da mesma forma como haviam chegado boa parte dos gols que a Seleção sofreu na Copa das Confederações: em vacilos individuais na defesa. Desta vez foi Marcelo que, aos nove minutos, cometeu pênalti desnecessário em Jesús Navas pela direita da área. Mas não era mesmo dia dos campeões mundiais: Sergio Ramos bateu para fora à direita do gol. Pronto. Já não havia o que mudasse a festa, com direito a grito de “olé” e um otimismo que não poderia ser maior para a equipe da casa de olho na Copa do Mundo da FIFABrasil 2014.

Com um a mais após a expulsão de Piqué, a Seleção tratou de aproveitar. De ouvir os gritos calorosos de um Maracanã que não se continha. De ver Pedro e David Villa de novo na cara do gol, ambos negados por defesaças de Júlio César. De viver uma noite perfeita. De assistir a si mesmo fazendo história.

FICHA TÉCNICA
BRASIL 3 X 0 ESPANHA

Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ)
Data: 30 de junho de 2013 (domingo)
Horário: 19 horas (de Brasília)
Árbitro: Bjorn Kuipers (Holanda)
Assistentes: Sander van Roekel e Erwin Zeinstra (ambos da Holanda)
Cartões amarelos: Arbeloa, Sergio Ramos (Espanha)
Cartão vermelho: Piqué (Espanha)

Gols: BRASIL: Neymar, a um minuto do primeiro tempo e a um minuto do segundo tempo, e Neymar, aos 43 minutos do primeiro tempo

BRASIL: Júlio César; Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Luiz Gustavo, Paulinho (Hernanes) e Oscar; Hulk (Jadson), Fred (Jô) e Neymar
Técnico: Luiz Felipe Scolari

ESPANHA: Casillas; Arbeloa (Azpilicueta), Sérgio Ramos, Piqué e Jordi Alba; Busquets, Xavi, Iniesta e Mata (Jesús Navas); Pedro e Fernando Torres (David Villa)
Técnico: Vicente del Bosque

ENTREVISTA
Um passo sem tamanho na vida de Neymar



Foram 15 dias de disputa da Copa das Confederações da FIFA, mas parece que durante esse tempo, paraNeymar, transcorreu uma vida. Ou ainda: transcorreu a passagem de uma situação tensa e incerta para outra completamente nova, onde o que mais se tem são certezas.

Algumas semanas atrás, a impressão no Brasil era de que vaiar Neymar e colocar sua qualidade em dúvida era quase um esporte nacional. Primeiro foi a torcida de seu Santos – equipe onde jogou toda a vida e pela qual conquistou três campeonatos paulistas, uma Copa do Brasil e uma Copa Libertadores da América – a pôr em xeque suas atuações num time que não vinha em grande fase. Até no dia de seu último jogo como santista, no Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, ele ouviu críticas.

Então, o garoto de 21 anos anunciou seu acerto com o Barcelona e seguiu para a Seleção Brasileira, onde até mesmo no último amistoso antes da Copa das Confederações, vitória por 3 a 0 sobre a França, ouviram-se vaias e críticas. Não importa quanta bola o garoto já houvesse jogado e quanto houvesse vencido: a impressão geral era de que era muito pouco; de que ainda havia muito a se provar, principalmente com a camisa amarela.

Pois, entre as muitas coisas que o torneio provou para a Seleção e para os brasileiros, essa foi sem dúvida uma delas: o Brasil pode contar com Neymar. Do golaço a dois minutos de jogo da estreia contra o Japão, no mesmo Mané Garrincha de uns dias antes, até mais um golaço de canhota e mais uma grande atuação na vitória antológica sobre a Espanha – para lhe garantir a Bola de Ouro adidas – o novo reforço barcelonista não se furtou nem um centímetro da missão de ser decisivo. Começou o torneio como um jogador, com uma imagem, e o terminou com outra completamente diferente.

Foi um passo cuja importância nem ele ainda sabe bem medir – e que faz questão quase obsessivamente de manter o mais distante possível de um feito individual -, como contou com exclusividade ao FIFA.comno Maracanã, logo após os 3 a 0:

Neymar, você já consegue pensar no que significa para sua carreira ter vivido um torneio como este, pela Seleção, em casa?
De verdade? Não tenho ideia… Não sei a dimensão que existe para isso. Só sei que é muito importante ter conquistado este título. É um feito gigantesco para a equipe, e nós estamos felizes demais por viver isto: foi uma grande partida entre Brasil e Espanha, uma que o mundo parou para assistir, e sabemos que fizemos um grande jogo.

Duas semanas atrás, seria possível pensar não só que o time seria campeão, mas que tudo daria tão certo?Sinceramente, não (risos). Eu falei agora mesmo para os meus companheiros, no vestiário, que as coisas estavam conspirando, que estava dando tudo muito certo em todos os aspectos. Fico feliz demais que este processo seja fechado com chave de ouro, com nossa melhor performance até aqui,

Quanto o gol logo no início do jogo, contra o Japão, foi responsável por facilitar esse processo, já que de cara afastou o clima de cobrança?(risos) Olha, eu não estava preocupado com isso: com jogar para pararem de falar mal de mim. Não. Eu queria era ajudar meus companheiros do melhor jeito que fosse possível: cometendo uma falta, dando um passe, marcando um gol… Naquele dia, ajudei marcando um gol com três minutos de jogo, um gol que sei que foi importante para a equipe. No fim, é isso que importa: ajudar a ganhar.

Nesta final você ajudou de várias formas, inclusive marcando um gol que requer estar muito confiante: com o meio da área fechado, você não teve dúvidas em bater com a perna esquerda e fez seu segundo gol de canhota neste torneio…Eu sempre treinei muito, muito mesmo, chutar tanto com a perna esquerda quanto com a direita. Aliás, meu pai sempre me disse, desde quando eu era pequeno: “você não tem que escolher perna para chutar. Se cair na esquerda, chuta de esquerda; se cair na direita, bate de direita”. Acho que isso eu aprendi. (risos)Aquela bola caiu na esquerda e, felizmente, eu fui feliz em acertar o chute forte.

Ouviu muitos parabéns dos futuros companheiros de clube?Poxa, ouvi parabéns, sim. Fiquei feliz demais, porque são jogadores que eu admiro e respeito, e que terei a honra e a felicidade de jogar ao lado.

E são jogadores que, agora, te respeitam mais?(risos) Ah, não… Acho que me respeitam da mesma forma que todo mundo se respeita dentro de grandes times. Não se trata de duvidar da sinceridade de Neymar ao responder, mas simplesmente de olhar à volta. Quanto isso importa ao camisa 10 brasileiro é outro assunto, mas algo é fato: ele deixa a Copa das Confederações da FIFA tendo imposto muito, mas muito mais respeito do que tinha até dia 15 de junho.

Fontes: FIFA.com – Gazeta Esportiva-CBF-Daily Mail Sports
Fotos: Getty Images
edição: Ramon Paixão – editor chefe do Jornal Escanteio

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