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Honra e glória aos 90 anos dos Camisas Negras do Vasco primeiro campeão com trabalhadores negros

O Vasco, comprova a história, nasceu para ser pioneiro. Em um país onde ainda hoje se discute sistema de cotas para reparar erros históricos, o Gigante, há 90 anos, já era um combativo militante contra o preconceito racial e social. Até o início da década de 1920, o futebol, jogado apenas por uma elite retrógrada e preconceituosa, era exclusivamente branco. No Brasil, que conhecia a abolição da escravatura havia apenas pouco mais de três décadas, o Vasco surgia, ao aceitar em seu time negros e trabalhadores humildes, como alternativa ao preconceito vigente. Contrariando a tudo e a todos, o Gigante desbancara os ditos clubes de bacanas da Zonal Sul. Os Camisas Negras, como aquele time era chamado, conquistou, no dia 12 de Agosto de 1923, o primeiro título do Campeonato Carioca par o clube, logo em sua primeira participação na elite do futebol da cidade. Nascia, assim, mais um militante na árdua luta por uma sociedade mais justa e igualitária. O Club de Regatas Vasco da Gama deixava claro, a partir de então, que optara pelo povo. E jamais abriria mão dele.

Personagem de suma importância na crônica esportiva nacional, Mário Filho escreveu “O Negro no Futebol Brasileiro”, obra fundamental para se entender como ocorreu a transformação deste esporte de elite em paixão de um país inteiro. Em trechos do livro, o jornalista deixa claro que o título carioca conquistado pelo Vasco, em 1923, mais do que celebrar a comunhão entre classes e raças distintas, mudaria, de uma vez por todas, a condição de negros e humildes no futebol. De renegados e humilhados, eles passaram, com a inestimável ajuda do Vasco, a personagens principais.

– A ilusão durou pouco. Os clubes finos, de sociedade, estavam diante de um fato consumado. Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro (…) Os outros clubes achando que aquilo precisava acabar. Tornou-se quase uma questão nacional derrotar o Vasco – abordava Mário Filho, em dois trechos do livro.

Vice-presidente de Relações Especializadas do Vasco, João Ernesto da Costa Ferreira, responsável pelo Centro de Memória do clube, também recorre a Mário Filho para explicar a importância da conquista de 1923. João Ernesto lembra a passagem de “O Negro no Futebol Brasileiro”, onde o jornalista, irmão de Nelson Rodrigues, destaca a importância do Vasco na mudança de cenário no futebol brasileiro.

– O futebol tem dois grandes divisores de água. O título sul-americano, da seleção brasileira, em 1919, e o primeiro título carioca do Vasco, em 1923. E quem disse isso foi Mário Filho, que nem vascaíno era. A gente do Vasco mudou o modo de acompanhar futebol. Os estádios eram tomados de assalto pela nossa torcida, para ver aquela equipe, formada por negros e trabalhadores humildes, que conquistou o campeonato de forma avassaladora. Por isso, neste dia 12 de agosto, toda honra e glória aos campeões de 1923 – celebrou João Ernesto.

150 JOGOS PELO CLUBE! Eder Luis e Fagner foram homenageados antes do jogo com a Ponte Preta em São Januário pelo presidente Roberto Dinamite

Presidente do clube, maior artilheiro do Campeonato Brasileiro e ídolo da torcida, Roberto Dinamite também se une ao vice de Relações Especializadas, nas homenagens aos Camisas Negras. Para Dinamite, mais do que o primeiro título do clube, no futebol, a conquista de 1923 representa uma opção política. O Vasco mostrava à sociedade de que lado se posicionaria.

– Além de espetacular no aspecto desportivo (foram 12 vitórias, um empate e apenas uma derrota), os Camisas Negras representaram muito para o futebol brasileiro. Com este time, formado por negros e humildes trabalhadores, mostramos que não há espaço para preconceito no esporte. Isso é que é o mais importante. Não que a conquista não tenha importância, mas a contribuição histórica dela foi muito mais significativa – comentou Dinamite.

Noventa anos depois, o Club de Regatas Vasco da Gama ainda vibra com esta conquista e homenageia seus herois. Em São Januário, não há nem um vascaíno sequer que a esqueça. E nem mesmo as futuras gerações a esquecerão. Afinal de contas, para quem tem Camisas Negras e toda essa história para contar, todo dia é dia de festa !




Primeiro estadual: Família do  campeão Mingote abre o baú

Mingote, nascido em 26 de maio de 1902, ilustra quadros do Vasco de 23 (Foto: Arquivo Pessoal)
Mingote, nascido em 26 de maio de 1902, ilustra quadros do Vasco de 23 (Foto: Arquivo Pessoal)
Time da virada e de história monumental, o Vasco oferece capítulos de sua bonita trajetória para que sua torcida transforme em música. Mas virada tão espetacular quanto a da Copa Mercosul o clube viveu em 12 de agosto de 1923, há exatos 90 anos, quando conquistou seu primeiro Campeonato Carioca. O triunfo ajudou a abolir barreiras raciais e sociais, permitindo a consolidação de negros e pobres no futebol brasileiro. E um dos heróis desta conquista, o zagueiro e meio-campo Mingote, que morreu em 1975 aos 73 anos, ainda está presente no bairro de Campo Grande, nos recortes de jornal guardados por sua filha Arli Paccine e pela neta Tatianna Paccine.
Discriminado por América, Botafogo, Flamengo e Fluminense, o Vasco assombrou o Rio de Janeiro com uma campanha avassaladora e com um time formado por negros, operários e suburbanos. Em 14 jogos, foram 11 vitórias, dois empates e apenas uma derrota.
O Vasco, com jogadores bem preparados fisicamente, definiu nove de seus 11 triunfos apenas no segundo tempo: em cinco foi para o intervalo com o marcador empatado e nos outros quatro iniciou a fama de time da virada. Na partida que lhe valeu o título, saiu perdendo por 2 a 0, mas venceu o São Cristóvão com três gols na etapa final: um do negro Ceci e outros dois de Negrito, um branco de cabelos lisos e muito escuros, origem de seu apelido.
O time campeão em vitória sobre o Botafogo. Da esquerda para a direita: Nicolino, Torterolli, Leitão, Bolão, Negrito, Arlindo, Arthur, Mingote e Paschoal. Deitado o goleiro Nelson (Foto: Centro de Memória do Vasco)
O time campeão em vitória sobre o Botafogo. Da esquerda para a direita: Nicolino, Torterolli, Leitão, Bolão, Negrito, Arlindo, Arthur, Mingote e Paschoal. Deitado o goleiro Nelson (Foto: Centro de Memória do Vasco)
O italiano Domingos Passini, que chegou ainda pequeno ao Brasil e logo foi apelidado de Mingote, era um dos brancos de origem humilde que se dividiam entre os jogos do Vasco e outra atividade – no seu caso, a de pintar paredes. Foi ele quem abriu o placar na primeira vitória cruz-maltina (por 3 a 1) no Carioca de 1923, sobre o Botafogo, na segunda rodada. Um dos heróis vascaínos, ele não pôde com sua trajetória futebolística garantir uma fortuna para sua família. A estabilidade que Arli Paccine, de 62 anos, tem em Campo Grande, onde mora com a filha Tatianna, deu-se em função dos anos de dedicação às Tintas Ypiranga, empresa na qual se aposentou.
Dona Arli posa com matéria da revista "Manchete Esportiva" de 11 de fevereiro de 1956 (Foto: Fred Gomes)
Dona Arli posa com matéria da revista “Manchete Esportiva” de 11 de fevereiro de 1956 (Foto: Fred Gomes)
A realidade atual é muito diferente quanto aos rendimentos mensais de um jogador que atue em um clube de Série A. Mas há semelhanças relativas à rotina dos atletas. Viagens, assédio dos fãs e até mesmo das marias-chuteiras da época eram constantes, conforme conta a filha Arli. Lembra-se da época em que era uma criança e via o pai, já com mais mais de 50 anos, ser muito assediado por vascaínos – e vascaínas.
– Minha mãe falava que viajava muito com ele para jogar. Já tinha assédio nessa época, o pessoal comentava sempre que ele jogou no Vasco. Meu pai falava muito. Onde ele parava, falava tudo que acontecia no Vasco. O pessoal pedia autógrafo, mas ele não dava. Era marrento (risos). E já tinha maria-chuteira, sim! Minha mãe falava que mulher ficava em cima e que eles às vezes estavam almoçando, e as mulheres paravam e perguntavam se ele ia jogar. Minha mãe sofria com mulher, mas ele era muito fechado e não era mulherengo. Não era de se exibir – garante ela, que nasceu quando ele tinha 49 anos.
Uma das perseguições sofridas pelo Vasco em 1923 dizia respeito à ocupação de seus atletas. Como o futebol era amador, exigia-se que os atletas tivessem outro emprego. Comerciantes portugueses, entretanto, quebraram esse protocolo, praticando o que foi chamado de amadorismo marrom. Registraram alguns dos atletas em seus estabelecimentos e não os obrigavam a trabalhar constantemente, mas pagavam para que jogassem.
Dona Arli guarda diversas fotos do time de 1923, incluindo um reencontro do time ocorrido em 15 de fevereiro de 1951 e noticiado pelo jornal "O Globo" (Foto: Arquivo Pessoal)
Dona Arli guarda diversas fotos do time de 1923, incluindo um reencontro do time ocorrido em 15 de fevereiro de 1951 e noticiado pelo jornal “O Globo” (Foto: Arquivo Pessoal)
Mingote recebia mais como pintor, porém isso não pesava em seu amor pelo Vasco. Arli conta que, mesmo depois de sofrer grave doença, ele lamentava não poder frequentar São Januário, algo tão corriqueiro quando estava bem de saúde.
– Papai era Vasco doente. Vivia muito no Vasco. Havia almoços, aí o chamavam, e o papai ia. Lembro que a última vez em que fomos convidados para o Vasco, eu já era mocinha, e ele já estava doente. Papai teve um derrame e nem sentava, paralisou a espinha toda. Até doente ele falava: “Não fomos no almoço” – conta.
Toda essa paixão pelo Vasco, porém, não passou para as gerações futuras. A família Passini, segundo Arli, é quase toda rubro-negra, inclusive a própria. Mingote era tão querido que, mesmo depois de ter morrido, limpou a barra de um neto flamenguista em reduto cruz-maltino. O dentista Milton Passini, de 58 anos e sobrinho de Arli, relata que virou rei em um bar em Botafogo – Zona Sul do Rio – ao revelar o grau de parentesco com o ex-zagueiro:
Dentista Milton, neto do vascaíno Mingote, é torcedor rubro-negro (Foto: Fred Gomes)
Dentista Milton, neto do vascaíno Mingote, é
torcedor rubro-negro (Foto: Fred Gomes)
– Eu não cheguei a ter contato de conviver com o Mingote por muito tempo. E eu não tinha, inclusive, nenhuma fotografia dele, não tinha nada que a gente pudesse ver. Então um dia lá no Bar do Otávio, que a gente chama de Bar do Vasco, descobriram que eu era flamenguista e me zoaram muito: “O que você está fazendo aqui?”. Mas, depois que descobriram que eu era neto do Mingote, aí a história mudou toda, passaram a me adorar lá. Me deram até foto dele.
Mas há quem grite e alto pelo Vasco nos Passini. Tatianna, filha de Arli, tem 31 anos e é a semente cruz-maltina deixada por Mingote. Ela faz uma queixa ao mundo do futebol, cobra mais homenagens e diz que a falta de referências ao passado faz até com que vire piada em roda de amigos quando fala da história do avô.
– Foi o primeiro Carioca do Vasco, e eles foram esquecidos. Se a minha mãe não soubesse a história de que meu avô foi jogador, eu jamais saberia. Sempre que falo do meu avô, meus amigos dão gargalhada e falam que isso não existe. O Vasco não se fez de agora, aqueles jogadores se dedicaram muito – questionou Tatianna, que se intitula como a “inimiga número 1 do Flamengo”.
O Vasco vem fazendo referências ao título de 1923 desde o clássico contra o Botafogo, no domingo. Na ocasião, os jogadores entraram em campo com uma réplica da camisa usada 90 anos atrás. Contra a Ponte Preta, o clube pediu que os torcedores fossem a São Januário de preto, e os jogadores atuaram com os nomes dos campeões às costas.
Tatianna é apaixonada pelo Vasco e pelo avô Mingote, embora não tenha lhe conhecido (Foto: Fred Gomes)
Tatianna é apaixonada pelo Vasco e pelo avô Mingote, embora não tenha lhe conhecido (Foto: Fred Gomes)

Museu de memória ainda é apenas um projeto
O Vasco tem um projeto para dar mais destaque à sua memória. Numa sala acanhada situada abaixo das sociais de São Januário funciona o Centro de Memória do clube. Apesar de pequeno, o local abriga o maior acervo de materiais digitalizados do mundo, segundo João Ernesto Ferreira, diretor do centro e vice-presidente de relações especializadas. O sonho de João é migrar para uma sala maior e, posteriormente, abastecer um pomposo museu, aguardado desde 2009.
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– Sei que dói no ouvido do fanático, mas nossa intenção é servir de pesquisa não só para o vascaíno, mas também para flamenguista, tricolor e botafoguense. Por acaso todos os funcionários do centro de memória são vascaínos, eu sou vascaíno, mas nosso trabalho não tem fanatismo. Queremos que o cara precise vir ao centro de memória do Vasco quando necessitar de algum material dos outros clubes. Nosso sonho é que o projeto do museu se concretize logo – afirma o pesquisador Walmer Peres.
Sobre o título de 1923, Walmer afirma que algo imprescindível para qualquer material relativo àquela jornada é a carta-resposta enviada pelo então presidente vascaíno José Augusto Peres à Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (Amea). A entidade foi criada em 1924 pelos clubes que se opuseram à participação do Vasco no Carioca e pediu a exclusão de 12 jogadores, entre negros e operários, sob alegação de que eram analfabetos ou não trabalhavam. Mingote foi um dos condenados, mas por outra razão: segundo a Amea, ele havia sido expulso do Exército. Clóvis Dunshee de Abranches, autor da defesa do jogador na época, provou que a acusação não procedia.
A resposta cruz-maltina foi um sonoro não, e o Vasco permaneceu na Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e levou o bicampeonato. Assim, o ano de 1924 teve dois campeões cariocas: o Vasco, pela LMDT, e o Fluminense, pela Amea. A carta resposta de José Augusto demarcou a importância do Vasco e lhe permitiu voltar à elite em 1925, firmando-se de vez. Veja abaixo uma imagem da carta-resposta e, a seguir, um texto com a transcrição:
cartaresposta1923_1924_memoria_vasco
Rio de Janeiro, 7 de abril de 1924.
Ofício nr. 261
Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle
M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos
“As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade que, absolutamente, não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede e nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.
Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma pela qual será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve, por unanimidade, a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo pelo qual foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.
São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros no começo de sua carreira, e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.
Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.
Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa”.
At. Vnr. Obrigado.
José Augusto Prestes
Presidente
José Augusto Prestes
Presidente
Bolo da festa dos 114 anos de fundação do CR Vasco da Gama
Vasco fez festa para os camisas negras, campeões de 1923

No empate em 1 x 1 com a Ponte Preta pela Série A do Campeonato Brasileiro, na quinta-feira 08/08/2013, os jogadores do Vasco, assim como os torcedores, trajaram camisas pretas , tendo o nome dos campeões de 1923 às costas. O atacante André autor do gol vascaíno jogou com uma camisa homenageando seu antecessor Negrito. A conquista, que desbancou os abonados clubes da elitista Zona Sul da cidade mereceu uma festa à altura. 

Nelson da Conceição: O goal-keeper vascaíno (1919-1923)

Nelson da Conceição – (Goal Keeper – Goleiro) – Nasceu em 12 de agosto de 1899, em Nova Friburgo, Estado do Rio de Janeiro. (A Tribuna, 21 de agosto de 1923, p. 7.)

A Primeira República (1889-1930) caracterizou-se como um período da História em que uma pequena parcela da sociedade brasileira gozava dos direitos concebidos pelos princípios republicanos expostos em lei, enquanto a maior parte da população, especificamente se tratando da cidade do Rio de Janeiro, encontrava-se em estado de marginalização social e política. Os negros, assim como as mulheres e os brancos pobres, eram alijados de diversas formas na sociedade, fosse pelo racismo, pelo preconceito social ou de gênero, e até mesmo pela exclusão do direito ao voto. Todavia, daquela sociedade de “bestializados”, insurgia elementos que procuravam lutar contra aquela situação de submissão, tal como a Revolta da Chibata (1910), cujo grande expoente histórico a nível de sujeito foi o marinheiro negro João Cândido Felisberto. O negro era a principal vítima da ausência do Estado e da sociedade quanto à sua condição social. Para aquele contexto, o negro não era um cidadão completo, e sim um “quase-cidadão”, configurando o seu isolamento social.

Neste cenário, o futebol surge na antiga Capital Federal, de forma institucionalizada, no início do século XX, através de membros da elite carioca, descendentes de ingleses, que o trazem da Europa. Na segunda metade da década de 10, o futebol já era praticado por toda a cidade e experimentava diferentes formas, uma realidade para muitos clubes, inclusive para clubes surgidos inicialmente para o remo. O CR Boqueirão do Passeio (1897) e o CR Icaraí (1895) já praticavam o futebol.

A Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e, depois, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA) organizavam as competições futebolísticas, sendo comandadas pelos clubes da elite. Essas disputas tinham grande destaque nos jornais, atraindo a atenção maior do público, mas existiam outras ligas e formas distintas da prática do esporte bretão, tal como o futebol praticado por clubes de menor poder econômico ou prestígio social, as chamadas ligas suburbanas, que congregavam elevado contingente de jogadores negros e brancos pobres, indivíduos das classes sociais menos favorecidas.

A criação de um departamento de futebol no Vasco viria a se tornar realidade no final de 1915, sob a presidência de Raul da Silva Campos, após uma tentativa frustrada na presidência de Marcílio Telles, em 1911. Raul Campos era renomado comerciante, e um dos principais dirigentes destinados a fazerem do Vasco um grande no futebol. No ano seguinte, o clube, sob a nova presidência de Marcílio Telles e tendo como vice-presidente Raul Campos, ingressou na 3ª Divisão. Em 03 de maio de 1916 realizou a sua primeira partida oficial. A estreia não foi das mais promissoras. Uma derrota de 10 a 1 para o Paladino F.C., no campo do Botafogo F.C., na rua General Severiano. O primeiro e único gol vascaíno foi marcado por Adão Antônio Brandão, um dos muitos jogadores que vieram do Lusitânia Sporte Club, agremiação que, ao se fundir com o Vasco, viabilizou a criação do departamento de futebol cruzmaltino.

Os vascaínos não desistiram. Iniciar um novo esporte não é fácil, e o clube já havia passado por isso no remo. Todavia, conseguiu se tornar uma grande expoente no esporte náutico, com o futebol não haveria de ser diferente. Em 1917, o Vasco subiu para a 2ª Divisão, permanecendo nesta até 1922, quando ascendeu à 1ª Divisão da LMDT. Contudo, é a partir de 1919 que o Vasco começa a construir uma base forte para brigar pela ascensão rumo à divisão de elite do futebol carioca. Neste momento, Nelson e o Vasco se encontram. O clube dos portugueses foi atrás de novos “atores”, na intenção de promover melhores espetáculos. Nelson veio do Engenho de Dentro e outros jogadores negros e brancos pobres viriam de clubes do subúrbio carioca, para integrar a equipe de futebol que se sagraria campeã em 1923.

Nelson da Conceição nasceu em 12 de agosto de 1899 na cidade de Nova Friburgo, distante 126 km da cidade do Rio de Janeiro. Mudou-se para a então Capital Federal, onde começou a disputar partidas oficiais de futebol ainda muito jovem, com apenas 15 anos. Iniciou sua carreira futebolística em 1915, no Paladino Football Club, clube filiado à Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA, depois LMDT). Em 1916 já atuava pelo Engenho de Dentro Athletico Club, onde se tornou tricampeão da Liga Suburbana (1916-1917-1918), a maior de todas as ligas do subúrbio.

O jovem Nelson da Conceição chegou ao Club de Regatas Vasco da Gama com 19 anos. Sua estreia oficial se daria meses depois, já com 20 anos, no dia 07 de setembro, na vitória do Vasco por 2 a 0 sobre o Sport Club Rio de Janeiro. A partida era válida pelo returno do campeonato da 2ª Divisão da LMDT. A importância de Nelson para o Vasco fica evidenciada pela forma como entrou na equipe e com a análise da sua frequência nos jogos. Nelson veio para o Vasco diretamente para ocupar a vaga de goleiro titular. Uma “contratação” vital para as pretensões do clube.

Desde o seu antigo clube, Engenho de Dentro AC, e principalmente nos primeiros anos de Vasco, Nelson da Conceição sofria com considerações pejorativas relacionadas ao seu ofício de condutor de veículos (chauffeur) e sua fala coloquial, posições emitidas nos jornais e revistas. O termo chauffeur se referia à época aos condutores particulares de automóveis, o que hoje é denominado taxista. Esta função era marcada por ser designada a indivíduos de baixa escolaridade, o que se somava ao baixo poder aquisitivo e a predominância de pessoas negras. Os indivíduos de classe social menos abastada desempenhavam atividades caracterizadas por serem braçais e com baixo uso da intelectualidade. Dentre outras, podem ser citados: os operários das fábricas, mecânicos, pescadores etc.

No futebol amador carioca, teoricamente, o jogador deveria exercer uma função externa ao futebol, não sendo o esporte o seu meio de sustento. Todavia, os indivíduos que desempenhavam atividades consideradas menores sofriam preconceito pela classe dirigente da Liga e de parte da imprensa.

Em 1922 o Vasco ascende à elite do futebol carioca, disputando, no ano seguinte, pela primeira vez em sua história, a série A da 1ª Divisão. O ano de 1923 foi especial em todos os sentidos para Nelson, para o Vasco e para o futebol carioca. De uma só vez, Nelson se tornaria o primeiro goleiro negro a ser campeão carioca, a defender a seleção carioca e a seleção brasileira.

De uma forma clássica, a escalação era a seguinte: Nelson, Leitão e Mingote; Nicolino, Bolão e Arthur; Paschoal, Torterolli, Arlindo, Ceci e Negrito. Arlindo (Arlindo Pacheco); Arthur (Arthur Medeiros Ferreira); Bolão (Claudionor Corrêa); Cecy (Silvio Moreira); Leitão (Albanito Nascimento); Mingote (Domingos Passini); Negrito (Alípio Marins); Nelson (Nelson da Conceição); Nicolino (João Baptista Soares); Paschoal (Paschoal Silva Cinelli); Torterolli (Nicodemes Conceição).

Com uma campanha avassaladora, o Vasco de Nelson foi derrotando um a um os seus rivais, terminando o campeonato com 11 vitórias no total. No dia 12 de agosto de 1923, Nelson completaria 24 anos e ajudaria o Vasco a ganhar o título de campeão da cidade pela maior liga do Rio de Janeiro. Uma vitória por 3 a 2 sobre o São Christovão, em General Severiano, dando ao Vasco de Nelson o título de campeão. Nelson era reconhecido o melhor goleiro do futebol carioca. O rapaz negro de 24 anos, que nasceu em Nova Friburgo, e que se mudou com a família para o Rio de Janeiro em busca de melhoria de vida, encontrou no futebol o seu espaço de subsistência. Devido as suas condições técnicas, e não a sua cor de pele, teve o seu talento reconhecido e fez parte de uma equipe montada para levar o Club de Regatas Vasco da Gama ao mesmo patamar dos grandes clubes cariocas.

Nelson foi também convocado para a Seleção Carioca em 1923 e para a Seleção Brasileira, que disputa o Campeonato Sul-Americano do mesmo ano. A campanha do selecionado brasileiro foi pífia, mas o goleiro vascaíno foi um dos poucos que escaparam das críticas, sendo inclusive considerado como um dos que evitaram uma campanha ainda pior do que a realizada.

O grande keeper tornou-se ídolo de um clube que se tornava grande, o Club de Regatas Vasco da Gama. Nelson ajudou este clube a ser um dos grandes no futebol, com sua técnica e sua dedicação.

Walmer Peres Santana

Centro de Memória do Club de Regatas Vasco da Gama


Fontes: www.vasco.com.br –  www.aovascotudo.com
Edição: Ramon Paixão
editor chefe do Jornal Escanteio


E-mail: jornalescanteio@gmail.com

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