“A Bahia não oferece estrutura”, diz a bicampeã Ana Marcela

 Estou numa crescente, sou jovem, tenho muitos anos de treino pela frente e o meu principal objetivo é ganhar a medalha olímpica no Rio, na frente dela e do resto do mundo. Vou atropelar!
Ana Marcela tem como objetivo final a medalha de ouro nas Olimpíadas do Rio em 2016

Em entrevista exclusiva ao A TARDE, Ana Marcela explica o que é que a Bahia não tem e São Paulo tem.

A baiana, que entre os principais títulos é bicampeã do circuito da Copa do Mundo de Maratonas Aquáticas, revela as diferenças estruturais de um Estado para outro que foram decisivas para ela trocar Salvador por São Paulo, onde está há seis anos.

A nadadora fala também sobre o foco: os jogos olímpicos do Rio, em 2016, quando promete superar a rival Poliana Okimoto e as outras concorrentes.

Neste sábado, em sua terra natal, Ana Marcela disputa a última etapa do Brasileiro de Maratonas Aquáticas, em Inema, na Base Naval.

 Já com o título confirmado, ela usará a prova como treino.

Afinal, o que é que a Bahia não tem, que São Paulo tem?

Quando falamos de esporte amador, salvo raríssimas excessões, infelizmente a Bahia não oferece estrutura.

Tudo é difícil, burocrático, parece que você está pedindo favor, quando na verdade o atleta que se destaca está elevando o nome do Estado.

 Falar de patrocínio, então. Aí falta visão empreendedora.

 O esporte é uma ferramenta capaz de agregar e vender qualquer produto, é uma grande oportunidade que não recebe a devida valorização.

Como você enxerga essa falta crônica de equipamentos na Bahia? Isso a incomoda, apesar de morar em São Paulo, onde você está há seis anos?

Saber que minha terra continua carecendo de piscinas e equipamentos para a prática da natação e outros esportes me entristece.

 Poderíamos ser ainda melhores, mas o tempo passa e não há nada de novo, só promessas.

Sair da Bahia, como você fez, é a melhor solução para quem quer ser um atleta de ponta e um dia ser campeão mundial ou medalhista olímpico?

Num determinado momento que o atleta atinge um patamar de atleta de ponta aqui na Bahia, acaba descobrindo que não tem mais como avançar a não ser saindo em busca de melhores condições de preparação.

Apesar de vários fatores favoráveis, como o clima, o ambiente e os excelentes técnicos de provas de fundo, ainda assim não dá para comparar.

Então, se a Bahia tivesse te dado tudo o que São Paulo te dá, você teria ficado aqui até hoje ganhando títulos?

Acho que sim. A Bahia está pelo menos uns dez anos atrasada em termos de gestão do esporte amador, principalmente das modalidades olímpicas aquáticas, mesmo com toda a dedicação e competência do Presidente da FBDA (Sérgio Silva) e sua equipe.

 E mesmo na terra da magia eles não fazem milagres. Isso compromete a vida de um nadador que sonha com uma medalha olímpica.

 Um ou outro pode até chegar lá, mas com certeza muitos mais poderiam chegar lá também se buscarem outros ares que lhes dê o suporte necessário, condições de trabalho, tecnologia, patrocínio.

 Meus títulos dedico todos à minha terra, foi aqui que desde pequena descobri as maratonas aquáticas, devo isso aos mares e lagos baianos.

 Sonho um dia poder voltar e desenvolver um projeto em prol dos nadadores que, assim como eu, têm sonhos dignos de serem sonhados e vividos.

Como está sendo a transição da Unisanta para o Sesi?

Considero a Unisanta a oitava maravilha do mundo, mas o SESI é a nona! Lá eu tenho ainda mais foco, equipe multidisciplinar e estrutura de primeiro mundo ao alcance das mãos.

 Detalhes importantes são apurados para dar ao atleta tudo o que ele precisa, além disso sou funcionária do Sesi, tenho outras vantagens que não tinha antes, estou ainda mais feliz aqui!

A medalha olímpica é um dos poucos títulos que não tem. O Rio-2016 é o momento?

O Circuito Mundial é a minha prioridade, a do meu técnico, da minha equipe multidisciplinar, do Sesi, da CBDA, do COB, do Ministério do Esporte, enfim de de todos que estão envolvidos.

 Faz parte no meu planejamento macro que tem como objetivo final a medalha de ouro na Olimpíada do Rio em 2016. Até lá, cada ano é mais um degrau a subir rumo ao mais alto lugar do pódio.

Por que você não tem mais conseguido vencer a Poliana Okimoto. O que houve?

A disputa com Poliana é dura (a nadadora assume um ar sério). Ela é uma excelente nadadora, nas maratonas não há favoritismo entre nós, somos as melhores do mundo em 2013 na prova de 10 km.

 As últimas provas ela tem ganhado no detalhe, mas nesta temporada ganhei dela a etapa de Eilat, em Israel, e até prova em piscina de 800m livre no Maria Lenk, que nem é a minha prioridade.

 Estou numa crescente, sou jovem, tenho muitos anos de treino pela frente e o meu principal objetivo é ganhar a medalha olímpica no Rio, na frente dela e do resto do mundo. Vou atropelar!

Em Inema, no ano passado, foi preciso o árbitro decidir?

Aproveito para lembrar que no ano passado, aqui mesmo em Inema, todo mundo viu que eu toquei na frente dela na prova dos 5 km.

 Depois, veio a dúvida da arbitragem, e, por fim, mais de uma hora de revisão das imagens e de bla bla bla decidiram pelo empate… Fazer o quê? Manda quem pode… Não sei se faltou coragem para confirmar a posição do árbitro que estava na chegada e tinha me colocado em primeiro ou não aguentaram a pressão do técnico dela, sei lá. Faltou saco.

O que falta depois do bicampeonato da Copa do Mundo de Maratonas Aquáticas e do título mundial na prova de 25 km?

Uma medalha olímpica. É a minha principal prioridade agora e o meu trabalho vai ser todo em cima disso, até 2016. Perdi as contas, mas devo estar na casa dos 400 troféus e umas 1500 medalhas ou mais…

 Mas o mais importante ainda está por vir, a medalha olímpica, vou busca-la já, no Rio 2016.

 Quando vem à Bahia, a comida que não escapa é qual? “Prato do dia” de sexta feira… Caruru completo!

Mas dessa vez não vai dar, tem prova amanhã (hoje) e estou concentrada com a equipe do Sesi no hotel, não posso me ausentar nem mesmo para ver meus avós Almiro e Nilma e sobrinhos, tios.

É verdade que quando vem a Salvador leva mais do que medalhas na bagagem?

(Risos) Minha avó disse que vai mandar a goma (para fazer o beiju), o beiju já pronto, farinha de mandioca, bolachinhas de goma e rapadura.

 Mas é para minha mãe e meu pai comerem. Comida baiana, carne do sol e outras delícias só quando eu vier nas férias, depois da Travessia Mar Grande/ Salvador.

Então, já está tudo certo para você nadar a Mar Grande?

Venho, sim, nadar a travessia que, por enquanto, sou pentacampeã.

 Em 2006, fui a mais jovem campeã, com 13 anos.Em 2008 cheguei ao bi e fui campeã geral (vencendo os homens).

 Fui tri em 2010, tetra em 2012 e, naquele ano, bicampeã geral (vencendo novamente os homens).

 O penta foi em 2013. A medalha olímpica é a minha principal prioridade agora, e o meu trabalho vai ser todo em cima disso até 2016. Estou numa crescente.

fonte:A Tarde

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