Campeões do Mundo: Mauro Silva, o coadjuvante mais importante do tetra

Camisa 5 do time comandado por Parreira era um dos homens de confiança do treinador e responsável por proteger a “zaga totalmente nova”

Titular absoluto, Mauro Silva atuou em todos jogos da Seleção Brasileira na Copa de 1994 e foi substituído apenas uma vez por Parreira (Getty Images)
Titular absoluto, Mauro Silva atuou em todos jogos da Seleção Brasileira na Copa de 1994 e foi substituído apenas uma vez por Parreira (Getty Images)

Lembrar do tetracampeonato mundial, logo vem à cabeça as imagens do Taffarel defendo um pênalti contra a Itália, o capitão Dunga levantando a taça ou Romário e Bebeto marcando seus gols.

 A exatos seis meses para o início da Copa do Mundo de 2014, porém, o FOXSports.com.br conversou com Mauro Silva para a série ‘Campeões do Mundo’, um jogador aparentemente coadjuvante daquele grupo, mas que foi, sem dúvida, um dos homens mais importantes para a conquista do quarto título da Seleção Brasileira.

O time de Carlos Alberto Parreira e Zagallo embarcou para os Estados Unidos totalmente desacreditado pela má campanha feita nas Eliminatórias, mas a chegada na Terra do Tio San não poderia ter sido melhor.

 Foram dois jogos e duas vitórias, contra Rússia e Camarões, respectivamente. “Iniciar com vitórias foi bom para ir adquirindo confiança no decorrer da competição. Vencer e convencer é importante e foi isso que o Brasil fez.

 Sair do país criticado foi bom, pois chegamos para o torneio em alerta, com a faca nos dentes e com o sangue nos olhos. Serviu de estímulo”, disse o volante.

Um dos homens de confiança de Parreira, Mauro Silva revela as conversas com o treinador nos bastidores e o pedido para proteger a zaga, que perdeu os titulares Ricardo Gomes e Ricardo Rocha. “Eu já sabia perfeitamente do esquema que ele gostava e a forma exata que ele exigia do jogador na minha função.

 A gente conversava muito. O Aldair e o Márcio Santos acabaram arrebentando, mas no início, o Parreira tinha a preocupação de jogar uma Copa do Mundo com uma zaga totalmente nova.

 Então, ele pedia para ter atenção maior no apoio a defesa e na cobertura dos laterais, jogar bem próximo do Márcio e do Aldair para dar mais tranquilidade e o time ficar bem compacto ali atrás”.

Eleito o melhor jogador daquela Copa, Romário não tinha a melhor das relações com a comissão técnica. Conhecido pela sua personalidade forte, Mauro afirma que o Baixinho foi muito tranquilo durante a competição e importante também fora de campo. “Eles tinham algumas divergências, mas não houve problema nenhum.

 O Romário é um cara especial, tem a forma de comportamento dele de ser, mas foi um cara muito legal e divertido para o grupo. Como ele se sentia à vontade, era muito brincalhão, apesar de ter as pequenas diferenças no início”.

Como toda conquista, o tetra também não foi nada fácil, principalmente nas fases de mata-mata, mas para o jogador que atuou em todas as partidas e substituído apenas uma vez, o jogo mais difícil foi contra a Holanda pelas quarta de final.

 “Foi até um ponto de reflexão. Começamos o jogo muito bem, marcando dois gols. Caminhava para um jogo relativamente tranquilo, mas eles acabaram empatando.

 Quando isso aconteceu foi um momento delicado. Emocionalmente, foi muito duro. Mas depois do gol do Branco, saímos daquela partida pensando que, de fato, estávamos perto do título”, lembrou.

Na sequência, Romário fez o único gol da partida contra a Suécia, que colocou a Seleção Brasileira em mais uma decisão de Copa do Mundo contra a Itália. Mauro Silva conta como foi abrir os olhos naquele 17 de julho de 1994, o dia mais importante de sua vida, segundo o ex-jogador.

“Acordei pensando que iria fazer uma boa partida e que o time iria jogar bem. Também tinha aquela ansiedade e preocupação, misturado com euforia.

Claro que não dava para tirar o jogo da cabeça, mas levei numa boa. Comecei a mentalizar a partida mesmo apenas quando estava indo para a preleção.

 Foi ali que comecei meu ritual. O Zetti era meu companheiro de quarto. No dia da final acordamos, batemos um papo, demos risada”, lembrou Mauro.

Já a caminho do estádio Rose Bowl, em Los Angeles, Mauro Silva comenta que teve o pagodinho entre os jogadores, como já era de prache. “O Taffarel, coitado, não sabia tocar nada de instrumento, aí a gente dava um chocalho vazio só para ele participar. E foi importante a gente ir para o jogo assim, bem descontraído”, brincou.

“A coisa ficou mais séria apenas na hora do aquecimento e da reza. É ali que começa o jogo. Mas aí tem a história do Ricardo Rocha. Ele sempre falava alguma coisa antes das partidas. E naquele dia não foi diferente

 Mas, no meio da conversa, daquele momento bem sério, ele falou que a gente tinha que fazer igual aqueles pilotos japoneses da kawasaki, ao invés de falar kamikaze. Aí pronto. O Romário já saiu da roda e caiu no chão de dar risada. Foi aquela bagunça momentos antes de subir para o campo”, disse.

“O Ricardo diz que foi de propósito, para descontrair o grupo, mas ninguém acredita nisso até hoje.

 Acabou sendo muito bom porque aliviou toda aquela tensão”, ressaltou. “Depois, naquele momento ali dentro do túnel, o Baggio ficou olhando fixamente para o Romário e lembro que o chefe de segurança, o Moisés, no intuito de querer motivar o time, falava ‘vamos, esses italianos são tudo raquíticos, só comem espaguete’, mas a gente olhava para o lado e via aqueles caras altos e fortes.

 Aí entramos no campo para jogar a final”.

Como sabemos, a partida terminou sem gols e foi para prorrogação. “Estava muito cansado depois daqueles 90 minutos jogando em baixo de um sol de praticamente 40°. Todo o time tinha feito um grande esforço físico e também tinha o lance do desgaste mental.

 A gente sabia que não poderia errar de nenhuma forma porque a Itália tinha uma equipe experiente e qualquer vacilo seria fatal”, relatou o camisa 5.

“Falava para os companheiros que tinha que dar, nem que fosse para morrer ali dentro do campo. Era uma final de Copa do Mundo. Por mais que estivéssemos cansados, era preciso buscar energia de onde for e não podíamos aparentar o cansaço para não dar moral para o adversário.

 Eu estava exausto, claro, mas passava na minha cabeça que o título teria que ser decidido naqueles 30 minutos para não deixar ir para os pênaltis. Isso porque, pouco tempo antes, tinha perdido um título do Campeonato Espanhol por conta de um pênalti perdido por um companheiro no La Coruña”, contou.

Mauro Silva acertou um chute de fora da área, Pagliuca deixou a bola escapar, mas ela bateu na trave. “Até hoje torço para aquela bola entrar”, descontraiu. “Foi terrível quando o juiz apitou o final da prorrogação.

Pensei ‘meu Deus do céu’. Aí o Márcio Santos vai bater, muda o canto e perde o pênalti, coisa que nunca tinha acontecido nos treinamentos. Aí foi aquele sofrimento”, confessou Mauro.

Felizmente para os brasileiros, Baresi, o primeiro a bater, chutou para fora e Taffarel defendeu a cobrança de Massaro. Romário, Branco e Dunga marcaram para o Brasil e Roberto Baggio também chutou por cima na última cobrança.

 “Minha primeira reação foi correr e abraçar o Taffarel e aí você não sabe nem o que faz, fica meio bobo e isso durou muito tempo, porque demora para cair a ficha. Até assimilar que a gente tinha ganhado a Copa depois de 24 anos”.

O título de 94 acabou sendo mais importante para o país do que parecia. “Tiveram algumas coisas que abalou o Brasil naquela época. A mudança do plano econômico para o real, a morte do Ayrton Senna.

 A gente queria dar essa alegria para o povo brasileiro naquele momento. Foi aí que vi que o futebol tem um poder incrível”, disse Mauro Silva. “É a maior conquista e o maior sonho de qualquer jogador

 É o máximo. Não tem nada que pode se comparar. É até difícil explicar a sensação. Demorei dias para assimilar que tinha ganhado uma Copa do Mundo”, explicou.

Para encerrar, Mauro Silva responde uma questão aparentemente simples: Por que a Seleção Brasileira venceu a Copa de 1994? “A Seleção foi pragmática no sentido de equilíbrio.

 Nosso time era muito compacto e seguro defensivamente, além de ter dois atacantes como Romário e Bebeto. A gente sabia que eles poderiam marcar a qualquer momento. O Parreira organizou muito bem o time. Essa foi a grande virtude do Brasil. Ser prático”, concluiu.

(Reportagem de Felipe Araujo)
fonte:Matéria vinculada no:FoxSports

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