Luciano do Valle e a dívida que não paguei

Minha primeira lembrança do esporte é a Copa de 1982. Eu tinha 5 anos, mas me lembro um pouco dos jogos contra a Nova Zelândia, contra a União Soviética e (aquele) contra a Itália. E Luciano do Valle era a voz da TV Globo, foi ele quem narrou a Tragédia do Sarriá.Luciano me “inventou” como jornalista esportivo. Porque, antes disso, me deu a chance de amar o esporte. Narrou corridas de Fórmula 1 em mil novecentos e Nelson Piquet na Brabham e “criou” o vôlei brasileiro – incluindo a ideia e organização de um inacreditável Brasil x União Soviética no Maracanã.

Quando Emerson Fittipaldi foi para os EUA, Luciano “decidiu” que o Brasil ia conhecer a Fórmula Indy. Conheceu, gostou e até hoje a categoria está na TV. Luciano criou o Show do Esporte. Quando a TV por assinatura não existia no Brasil, um canal – a Bandeirantes – passou a transmitir apenas esporte durante todo o domingo. E vimos o Campeonato Italiano com os inesquecíveis duelos de Napoli x Milan e conhecemos Rui Chapéu e Roberto Carlos, reis da sinuca. Foi técnico da seleção brasileira de masters. Criou uma Copa do Mundo dos velhinhos.

Foi narrado por Luciano do Valle o primeiro jogo de futebol americano que vi na vida. Em setembro de 2013, no Bola da Vez, da ESPN, falou sobre a investida no esporte. Celebrava 50 anos de carreira.

Nos últimos anos, é preciso ser honesto, nos divertimos bastante com as gafes de Luciano. Quando estava na Record, em 2003, se enrolou durante um jogo da segunda divisão do Campeonato Brasileiro que até hoje o Esporte Fino usa no Twitter como um bordão. “Ah, como é gostoooooosa a Série B! Quer dizer, menos para os torcedores dos times que estão na Série B”. Costumava trocar nomes de pilotos na Indy, se enrolava para falar Ryan Hunter-Reay. Chamou Justin Wilson de George Wilson.

Luciano morreu hoje, aos 70 anos, enquanto viajava para narrar Atlético-MG x Corinthians, abertura do Campeonato Brasileiro. Com ele tenho uma dívida que jamais poderei pagar. E tenho certeza que ele jamais pensaria em cobrar. Como eu, muitos outros teriam de pagar. E não há dinheiro que pague o que Luciano fez por mim.
fonte:Link to Esporte Fino

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