A moralidade no futebol é outra?

A violência dos black blocs em manifestações pelo país e a violência de torcedores organizados de futebol são fenômenos de origens diferentes, mas naturezas semelhantes.

A Gaviões da Fiel no estádio: histórico de violência (Foto: Agência Corinthians)
A Gaviões da Fiel no estádio: histórico de violência (Foto: Agência Corinthians)

 Ambos caracterizam-se pelo desprezo do diálogo e apreço pela violência em suas atividades. Apesar da natureza parecida, as duas situações são tratadas de formas bastante diversas pela opinião pública.

O mais recente caso de violência envolvendo manifestantes culminou com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band. O caso é, acertadamente, acompanhado de perto pela imprensa. Não faltam palavras de condenação a quem age como black bloc e àqueles que supostamente dão incentivos e guarida moral a esse tipo de ação. A campanha por repressão e justiça, entretanto, esbarra no fato de não existir uma organização chamada black bloc, com sede e hierarquia, uma vez que trata-se de uma tática, não de um movimento.

Vejamos agora as torcidas organizadas, tomando como exemplo a Gaviões da Fiel, do Corinthians, que tem aparecido com frequência no noticiário.  Ela tem sede e hierarquia, disponíveis na internet para qualquer um ver,  e atividades conhecidas. Tem também uma ficha corrida de ilegalidades impressionante. Para ficar nos casos mais famosos, a capivara da Gaviões inclui emboscada, assassinatos no Brasil, pelos quais o então presidente da torcida foi indiciado pelos crimes de homicídio, lesão corporal e formação de quadrilha, um assassinato na Bolívia, invasão e violência na apuração de um Carnaval e, mais recentemente, a invasão do CT do Corinthians (somada a furtos e agressão) e um comportamento notadamente fascista na arquibancada do Pacaembu.

Mesmo diante de tudo isso, não faltam pessoas para pregar o diálogo com os organizados e criticar iniciativas que tratem grupos de pessoas que se juntam para cometer crimes como o que devidamente são: organizações criminosas. Até hoje, quem fez isso, como Fernando Capez, é criticado por ter supostamente fechado “os canais de diálogo” com as organizadas. Enquanto isso, os dirigentes, notoriamente responsáveis por mimar vários marginais, são tratados como uma legitimidade impressionante.

O que explica isso? A moralidade no futebol é diferente, mais permissiva? Isso vale para o quê? Para homofobia, racismo e também violência? Seria o futebol um assunto menos sério e, portanto, passível de maior condescendência? Por qual motivo os crimes das organizadas não são acompanhados de perto? A culpa é da imprensa esportiva, não estruturada para tanto? Só dela, ou dos torcedores que não ligam para a violência de seus “iguais”? As organizadas devem continuar existindo como hoje? Mesmo após seus integrantes e comandantes cometerem crimes? O preço a se pagar por uma torcida “fanática” é conviver com organizações criminosas? Vale a pena essa troca?

Talvez antes de querer entender por que as “autoridades” não resolvem o problema da violência nos estádios torcedores e jornalistas precisem responder o que realmente acham deste tipo de violência e até onde estão dispostos a ir para lidar com essa questão.
fonte:Link to Esporte Fino

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