Blatter: "O futebol deveria desempenhar um papel mais importante"

Aargauer Zeitung: O senhor afirmou que gostaria de esclarecer algumas coisas sobre a sua pessoa ao final do mandato. Vá em frente.
Joseph Blatter: Não só sobre mim. Recebi do Congresso da FIFA a missão de melhorar a imagem um pouco arranhada da FIFA. Também é uma prioridade minha enfrentar as suspeitas de que recebi dinheiro. Isso é completamente falso e já foi comprovado na justiça.

Recebe pouco reconhecimento na Suíça por suas realizações?
Profetas não têm respeito na própria terra — a exceção talvez seja o Valais (risos). As reportagens da imprensa muitas vezes não refletem a realidade, e os jornaslistas escolhem palavras que às vezes não correspondem aos fatos. Em público, porém, encontro reações totalmente distintas: na Suíça, posso viajar sozinho de trem de Zurique para Visp. E se as pessoas vêm falar comigo, elas só têm coisas boas a dizer.

A imprensa suíça é mais crítica do que em outros países?
Não. É preciso conviver com as críticas quando se preside uma organização global.

As críticas ferem o senhor?
(Reflete) No começo, feriam. Agora desenvolvi uma resistência e estou mais experiente. Fico feliz em receber críticas saudáveis. Mas é chato quando as pessoas reaparecem constantemente com velhas inverdades. E não sou eu quem sofre com as críticas, mas a minha família.

O senhor ocupará o cargo por mais quatro anos e não precisará se reeleger. Portanto, não precisa mais temer e tem a oportidade de realizar algo marcante.
A meta dos últimos quatro anos é fazer com que o futebol tenha um papel mais importante na sociedade. E que seja reconhecido como uma escola de vida. Para isso, lançamos em 2009 um programa maravilhoso chamado “Futebol pela Saúde”. Em parceria com governos do mundo todo, estamos trabalhando para promover a conscientização social em matéria de saúde através do futebol.

O senhor deseja fortalecer a posição do futebol na sociedade através da educação e da saúde?
Sim. Nas áreas da saúde e da educação, estamos trabalhando diretamente com os ministérios de vários países no mundo inteiro. Temos um acordo de cooperação assinado com eles. A questão não é só o “Futebol pela Saúde”. Há muito mais.

Esses programas são implementados majoritariamente nos países em desenvolvimento?
Principalmente nos países onde o futebol é praticamente o único esporte coletivo. E nos países que precisam deles. Na Europa menos, já que a UEFA tem os seus próprios programas. Na África, na América do Sul e no Caribe, porém, realmente fazemos a diferença. Neste mundo louco em que vivemos, o futebol é muito importante.

O que quer dizer?
Nos últimos cinco anos, nunca deixou de existir um campeonato nacional de futebol no Iraque. O futebol une as pessoas e é importante para a sociedade.

Contudo, o grande problema são os hooligans e a corrupção.
Como instituição o futebol possui mais de 300 milhões de membros, o que equivale à população dos Estados Unidos. Com tanta gente envolvida, sempre haverá quem quebre as regras. Isso é algo que não se pode impedir. Não se pode afirmar que uma entidade é corrupta com base nos atos das pessoas. Fazemos o possível para lutar contra isso. Por exemplo, trabalhamos em parceria com a Transparência Internacional. O Comitê de Ética combate e decide o futuro de quaisquer indivíduos que sejam denunciados. Além disso, trouxemos o especialista em combate à corrupção Mark Pieth à Suíça a fim de que ele nos oriente em matéria de prevenção da corrupção. Já o problema dos hooligans é uma questão de educação e de organização da segurança.

Houve muitos incidentes com rojões na Suíça.
Eu não consigo entender isso de jeito nenhum. Rojão não combina com futebol, ponto final. A FIFA estabelece medidas de segurança que as federações devem cumprir. Se isso não funciona na Suíça, devo presumir que as federações e os clubes não conseguem mobilizar a vontade para aplicá-las. Mas a FIFA não é a polícia.

Mas é necessário mais policiamento?
Sim, os clubes devem trabalhar mais estreitamente com a polícia. No antigo estádio Hardturm (em Zurique), havia catracas onde todos os visitantes eram revistados — até eu, presidente da FIFA, fui revistado, o que á algo que deveria ser feito.

Rojões e fogos de artifício praticamente só são vistos na Suíça hoje em dia.
Isso é ruim para a imagem do torcedor suíço. Outros países acharão que os torcedores se divertem acendendo esses objetos e os levam para jogos no exterior! Fui convidado para ir a Berna no dia 6 de dezembro. Perguntaram se eu discursaria diante de centenas de membros do parlamento. Estou contente em fazê-lo. No entanto, não quero apenas discursar. Gostaria de me colocar à disposição para perguntas e um diálogo aberto.

Quais seriam as consequências se a FIFA pagasse impostos de acordo com a alíquota normal?
Não geramos lucro enquanto federação, somente saldos positivos que são canalizados para as nossas reservas. As reservas não são taxadas em nenhum setor de atividade. A FIFA reinveste 75% do dinheiro diretamente no desenvolvimento do futebol. Desde 2003, apresentamos os nossos balanços de forma transparente, como uma empresa registrada na bolsa de valores — ao contrário da maioria das federações.

A FIFA e as outras federações internacionais têm sede na Suíça por conta dos benefícios fiscais?
Não. Em primeiro lugar, a Suíça é um paraíso, um país seguro. Além disso, há mão de obra qualificada aqui. Mesmo nas federações pequenas, é importante contar com funcionários que falam duas ou três línguas. A FIFA possui 360 funcionários de 42 países em Zurique — e quase todos eles pagam impostos aqui.

Significa dizer que as federações esportivas não questionam a escolha da Suíça como local das suas sedes?
Não. Mas é necessário agir. É por isso que todas as federações esportivas estão desenvolvendo estratégias para explicar ao povo suíço com uma única voz o que estamos fazendo aqui — e que fazemos algo para o público em geral: criamos empregos e promovemos o turismo. A cidade de Lausanne, graças também ao Museu Olímpico, atrai muitos turistas esportivos.

Então vocês visam melhorar a imagem das federações esportivas junto ao público e na política?
Sim, em todos os níveis da política suíça. Não temos problemas com o cantão de Zurique.

Os comentários que o senhor fez acerca do racismo na quarta-feira provocaram polêmica. O racismo não tem lugar no futebol, mas coisas assim podem acontecer “no calor do momento”. O jogador inglês Rio Ferdinand reagiu com indignação.
Fui completamente mal-interpretado. Venho combatendo o racismo e todos os tipos de discriminação de maneira apaixonada há anos. A FIFA está firmemente engajada na questão. Lançamos diversas campanhas contra o racismo, como “Diga Não ao Racismo” e outras. Respondi ao Rio Ferdinand no Twitter e deixei a minha posição clara e inequívoca. Peço desculpas a todos que foram ofendidos pelos meus comentários e sigo empenhado em lutar contra essas maldades.

O senhor gosta de política. Na juventude, apoiou a campanha eleitoral do seu irmão, que era vereador em Siders. Em quem votou no dia 23 de outubro?
Não havia muita opção no Valais.

O nosso palpite é que votou no Partido Liberal Democrata…
Exato, votei no Partido Liberal Democrata, embora ele não tenha tanta representação na região. O partido não deveria se chamar “liberal”, apenas “democrata”. O meu pai e um dos meus irmãos foram do Partido Liberal Democrata, e o outro irmão era do Partido Democrata Cristão. Eu, pessoalmente, nunca me envolvi com partidos políticos.

O senhor se reúne com chefes de Estado do mundo todo. O que acha do nosso Conselho Federal, comparativamente?
Acho que a nossa presidenta é maravilhosa.

A presidente do Conselho Federal, Micheline Calmy-Rey?
A Sra. Calmy Rey fez um discurso de abertura muito bom no Congresso da FIFA em junho. Eu a tenho em alta estima, assim como à sua antecessora. A Sra. Leuthard foi à Copa do Mundo da FIFA na África do Sul e organizou uma recepção na Embaixada da Suíça em Pretória em homenagem ao presidente da FIFA. Recebi a visita de outro entusiasta do futebol, Urs Wyss, e da sua adorável esposa.

A conselheira de Estado Pascale Bruderer Wyss?
Exatamente. Mandei a ela uma mensagem de parabéns pela eleição e pelo nascimento da filha Juliana.

A Suíça recebe exposição internacional por conta da tributação e de questões fiscais. Concorda com isso?
Os suíços às vezes criam problemas que outros países nem percebem. Visitei inúmeros lugares e a Suíça tem uma imagem excelente em todos os continentes.

O senhor tem muita admiração por Doris Leuthard. Existem vozes no parlamento conclamando Leuthard a representar a Suíça no Ministério das Relações Exteriores, sobretudo nestes tempos difíceis.
Suspeito que a pergunta seja uma pegadinha? (risos)

Não, de modo algum.
Doris Leuthard é uma personalidade muito elegante e encantadora que faz um trabalho excepcional representando a Suíça. No entanto, teremos de esperar pelas eleições para o Conselho Federal.

O Partido Popular tem direito a um segundo assento?
Prefiro não comentar o assunto.

A Suíça deveria organizar um grande evento esportivo outra vez?
A Suíça já teve a Euro 2008.

É verdade. Mas agora Davos e St. Moritz querem organizar as Olimpíadas de Inverno na Suíça. Acha que a Olimpíada é um projeto realista para o país?
A Suíça tem capacidade para sediar os Jogos de Inverno, mas eles teriam de ser completamente redimensionados. Os Jogos vêm assumindo dimensões enormes, conforme se vê pelos eventos de Vancouver, Sochi e Munique. Pegue Vancouver, por exemplo. Se quisermos sediar as Olimpíadas no Valais de maneira semelhante a que fizeram em Vancouver, teríamos de remover todas as cidadezinhas entre Fiesch e Oberwald.

O Comitê Olímpico Internacional concorda em redimensionar os Jogos?
Não.

Então a candidatura não é realista?
Não quero jogar areia no trabalho dos organizadores em Grisons, mas não podemos negar as dimensões gigantescas dos Jogos Olímpicos. Pelo contrário, há novos candidatos que querem tornar os Jogos ainda maiores. O que Munique está oferecendo simplesmente não é viável na Suíça. Somos pequenos demais. Sion 2006 foi a nossa última chance. Teria sido um grande evento.

O senhor está na FIFA há 37 anos.
Sim, decidi deixar o ramo dos relógios em novembro de 1974, depois de ouvir diversas vezes que eu não levava jeito para relojoeiro. Comecei a trabalhar na FIFA em fevereiro de 1975, quando ela tinha apenas 11 funcionários. Eu cheguei como o 12º, que continua sendo o meu número até hoje. Naquele tempo, o número 12 era um substituto. Comecei como Diretor de Desenvolvimento, função que ainda realizo hoje em dia. Desenvolvimento significa aprender e ensinar. Até as pessoas que ensinam precisam continuar aprendendo. Não acaba nunca. Nesses 37 anos, o futebol cresceu muito.

A televisão teve um papel central nesse crescimento.
O casamento entre o futebol e a televisão gerou desenvolvimento para o futebol e para a televisão. O futebol é o melhor programa para a TV, pois você só precisa de câmeras, mais nada. O futebol é a tragédia grega clássica: unidade de tempo, lugar e ação. Você nunca sabe como uma partida vai terminar. Futebol é drama. Uma cobrança de pênalti pode inclusive se transformar em tragédia pessoal. Neste sentido, o futebol virou um ramo de atividade enorme.

Voltemos ao começo. Agora que não concorrerá à presidência outra vez, o senhor está tendo a oportunidade de se transformar em uma figura histórica.
Quem sabe o que o futuro nos reserva?

O senhor queria sair em 2015. Isso significa que vai continuar?
Não sei nem se estaremos vivos até lá, já que alguém previu que o mundo vai acabar no final de novembro. Falando sério: não vou voltar atrás em relação ao anúncio que fiz, mas não sei o que 2015 reserva. Tenho dois objetivos. O primeiro é fazer do futebol algo mais que apenas um esporte, e sim uma parte valiosa da sociedade. E o segundo é restaurar a imagem agora arranhada da FIFA e do seu presidente, que é o meu dever. O meu pai, com quem ainda converso frequentemente, costumava me dizer isso.

Ele dá bons conselhos ao senhor?
Sim, principalmente quando as pessoas se põem a dizer que eu deveria renunciar.

O que ele diz?
Visitamos o mausoléu da família em Visp no dia 1º de novembro e o pai disse para mim: “Não perca o controle. Não perca a confiança. Continue.” Sendo assim, continuo. A máquina ainda está rodando. A minha fé também contribui para isso.

Fé católica?
Fé em Deus. Fui criado como católico, então claro que a Igreja Católica tem uma influência sobre mim. Preciso acreditar que estou fazendo a coisa certa. Como o sucesso acontece? Você precisa ter conhecimento, e precisa transformá-lo em habilidade. Depois, exige-se experiência, além de crença no que se estiver fazendo. Finalmente, você precisa de um pouquinho de sorte. Combino esse pouquinho de sorte com a minha fé, não apenas em mim mesmo, mas em Deus.

Retira forças de Deus?
De vez em quando Ele diz para mim: “Você precisa consertar isso sozinho. Não posso ajudá-lo com isso. Estou falando sério.” Temos uma reunião de alunos na abadia de St. Maurice todos os anos, da qual o ábade de St. Maurice também participa.

O senhor é muito religioso?
Profundamente religioso.

Isso tem alguma coisa a ver com o Valais?
Tem a ver com a minha criação. Não há nada de místico nisso, a minha fé é muito forte. Muito verdadeira.

Ela dá forças ao senhor para enfrentar todos os problemas e críticas?
Sim. Claro que dirigir até o Valais para ver a minha filha, o marido e a neta também me dá muita força. Mas preciso reunir forças dentro de mim mesmo.

Está em paz consigo mesmo?
Muito. Posso não estar sempre satisfeito comigo mesmo, mas estou em paz. Acredito no que faço. É por isso que nunca preciso me esforçar para estar no escritório às 7h. Do contrário, teria de me questionar seriamente. E quando não estou no Valais nas tardes de domingo, estou aqui na minha “sala de estar”, o meu escritório.

Como lida com isso aos 75 anos?
Tem a ver com o fato de eu ter nascido prematuramente. Nasci de sete meses e, naquela época, os bebês prematuros não eram postos na incubadora, e sim numa cesta. Pesava apenas 1,5 kg (indicando o tamanho com as mãos). Imagine. A minha mãe me contou tudo. Ela parou de falar com a sogra porque ela costumava dizer que eu era “uma criança incompleta”. Eu não tinha nem unhas nas mãos.

Quer dizer que a sua luta por sobrevivência começou no nascimento?
Despertou alguma coisa dentro de mim. Espero que continue.

Fonte: FIFA.com

Antonio Bento
Analista de Redes de Computadores , Pos-Graduado em Segurança de Redes de Computadores , Pos-Graduado Tecnologias Para Aplicações Web. Trabalha deste 2008 com Aplicações web em desenvolvimentos nas linguagem (php, Python, Ruby Rais) Conhecimento Avançando em banco sql Nosql.
http://stice.info

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